Estância Mimosa em Bonito

Premiada por sua conservação e primeira do mundo com a Certificação Climate Positive, a Estância Mimosa guarda dez quedas d’água na Serra da Bodoquena.

Por Átila Ximenes

Chegamos um pouco antes das oito da manhã. O frio segurava a neblina, e um café quentinho foi a primeira boa notícia do dia. A sede que recebe os visitantes é a antiga casa da fazenda, erguida quando a propriedade foi adquirida, em 1998, pelo casal Eduardo e Simone Coelho, que decidiu preservar a área e dedicá-la inteiramente ao turismo. Sua arquitetura original foi mantida, e é ali, cercada por uma atmosfera genuinamente interiorana, que começa a experiência.

Enquanto o grupo se organizava, caminhei pelo entorno observando as aves. Não é exagero: a Estância Mimosa já catalogou mais de 250 espécies dentro de sua área, o que faz da propriedade um destino à parte para quem gosta de observação de aves. Logo notei as caixas-ninho instaladas nas árvores, parte de uma parceria com o Projeto Arara Azul. Segui até o mirante ao lado, na esperança de ver os jacarés que costumam se aquecer ao sol nas primeiras horas do dia, a lagoa em frente à sede é, inclusive, o território de Tony, um jacaré que já é praticamente um funcionário informal da casa. Não tive sorte: o tempo fechado e o frio os mantinham escondidos, invisíveis sob a superfície parada da água.

O guia chegou pouco depois e nos levou até uma área com um mapa da reserva, onde recebemos os coletes salva-vidas e as instruções do circuito tradicional. Optei por não entrar na água, o frio daquela manhã não deixava dúvidas, mas parte do grupo topou o desafio e mergulhou. O passeio começou pela agrofloresta da estância, onde fica evidente o cuidado que a propriedade dedica ao solo: é dali que saem boa parte das verduras e hortaliças que mais tarde chegam à mesa do almoço, cultivadas em sistema orgânico. Dali, seguimos de carro até o início da trilha.

A caminhada percorre cerca de 2.800 metros, ida e volta, por dentro da mata ciliar do rio Mimoso, entre passarelas suspensas, leitos de riachos e escadas de madeira, bastante escadas, diga-se, que sobem e descem acompanhando o relevo. Nada radical, mas o suficiente para lembrar que se trata de uma trilha. Árvores nativas de troncos grossos e copas altas se impunham em cada trecho, e os mirantes ao longo do caminho abrem janelas para a morraria da Serra da Bodoquena, que emoldura o vale inteiro.

São dez quedas d’água ao longo do percurso, nove delas liberadas para banho, cada uma com uma personalidade própria. Algumas, como a Cachoeira do Mulungu, formam piscinas naturais rasas e tranquilas, ideais para quem busca um banho mais manso; outras, como a Cachoeira das Grutas, escondem pequenas cavidades na rocha que dão nome ao lugar. Paramos em cada queda d’água para a explicação do guia e a possibilidade de banho, e a trilha foi se transformando em uma sequência de pequenas pausas contemplativas.

Ao final do percurso, voltamos à sede para o almoço, e ali a Estância Mimosa reservou a sua melhor surpresa. O cardápio reúne pratos regionais preparados no fogão a lenha com ingredientes colhidos na horta orgânica da própria fazenda. Comida farta, de fazenda, com tempero de quem entende do que está servindo. E o doce de leite artesanal, preciso ser sincero, é um dos melhores que já provei. Bom o suficiente para eu sair de lá com três potes na mochila, sem qualquer pingo de arrependimento (eles vendem online e em breve colocarei alguns no carrinho).

Por trás da experiência, há uma estrutura de conservação que impressiona pelo tamanho. Desde 2013, 66% da área da fazenda é oficialmente uma Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN), e mais de 80% de toda a extensão da propriedade é hoje floresta nativa preservada ou em processo de recuperação. Foi justamente esse trabalho que tornou a Estância Mimosa o primeiro atrativo turístico do mundo a receber a Certificação Climate Positive, concedida pela Green Initiative, um reconhecimento internacional ao papel da fazenda na mitigação das mudanças climáticas. O atrativo também foi pioneiro em Bonito na certificação ISO na modalidade de caminhada e banho de cachoeiras, renovada anualmente e sem interrupções desde 2010. Números que ajudam a explicar por que, mesmo em uma manhã fechada e fria, tudo ali parecia estar exatamente no lugar certo.

Maiores informações no site: gruporiodaprata.com.br

Átila Ximenes visitou o atrativo em maio de 2026, quando participou do Inspira Ecoturismo no painel “Turismo Responsável e Políticas Públicas”. Agradecemos ao Grupo Rio da Prata pelo convite para vivenciar essa experiência.

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