Flutuação no Rio da Prata em Bonito-MS

Uma manhã de flutuação no Rio da Prata, onde a água não esconde nada e a natureza dispensa legenda.

Por Átila Ximenes

Há um momento, dentro do Rio da Prata, em que você para de nadar e simplesmente deixa a correnteza levar. Não porque esteja cansado, mas porque qualquer movimento seu pareceria uma espécie de impertinência diante do que está acontecendo ao redor.

A água é tão transparente que parece que não existe. O que existe são os peixes, como Piraputangas e Dourados, dezenas, centenas, flutuando ao seu lado. 

Essa foi a minha manhã no Recanto Ecológico Rio da Prata, em Jardim, Mato Grosso do Sul, vizinho de Bonito e parte do mesmo universo de ecoturismo que colocou o Centro-Oeste brasileiro no mapa do turismo internacional.

O Rio da Prata foi pioneiro, em meados dos anos 1990, em implantar medidas de segurança física que simplesmente não existiam no turismo de Bonito à época, seguros de acidentes, radiocomunicação, material de primeiros socorros. Tudo isso vira rotina tão incorporada à experiência que você mal percebe: é apenas a sensação de estar em boas mãos. Alto nível de operacionalização.

Trocamos de roupa, roupa de neoprene, bota, colete, máscara, snorkel, e embarcamos em uma van que nos levou até o ponto de entrada na trilha. São 300 metros caminhando pela mata antes de chegar à beira do rio. Trezentos metros em que o olho vai se calibrando para o que está por vir: sombra densa, cheiro de água doce, o som do rio que você ainda não viu mas já sente.

Na beira da água, um novo briefing. Regras simples, essenciais: fila indiana, silêncio incentivado, nada de repelente ou protetor solar, nada de alimentar os animais. O ambiente não é uma atração gerenciada para o seu entretenimento, você é que está sendo convidado para dentro do ambiente. Essa inversão de perspectiva muda tudo.

Testamos equipamento, ajustamos flutuabilidade, e então, com uma leveza que só a correnteza explica, entramos.

Tem uma sensação muito específica que acontece no momento em que você coloca o rosto dentro da água do Rio da Prata pela primeira vez. É próxima ao que imagino que seria o espanto de alguém que, ao abrir uma porta que julgava levar a um armário, encontra um jardim inteiro do outro lado.

A visibilidade é de dezenas de metros. O fundo do rio, seixos claros, areia branca, manchas de vegetação aquática, parece pintado. E os peixes, os peixes estão em toda parte. Não espantados, não curiosos de um modo ansioso. Apenas… ali. Fazendo o que fazem. Você é o elemento estranho nessa equação, e eles decidem que você não vale atenção especial.

A correnteza faz o trabalho. Você não precisa nadar com força, precisa apenas orientar o corpo, manter o snorkel limpo e deixar o rio ditar o ritmo. É um passeio contemplativo no sentido mais preciso da palavra: você contempla, e ponto. Não há nada a fazer além de ver.

Em algum ponto da descida, nossa guia gesticulou discretamente para a margem direita. Um jacaré. Imóvl como pedra estrategicamente posicionada, indiferente à fila de pessoas mascaradas que flutuava a poucos metros deles.

Confesso que o coração acelerou. Mas foi uma aceleração de maravilhamento, não de medo, e o ambiente controlado dá essa segurança. O Recanto tem um programa de monitoramento ambiental ativo desde 2001, com observações diárias registradas por guias e pesquisadores. A fauna local, jacarés, lontras, antas, sucuris, é acompanhada de perto. Não há registro de acidentes envolvendo os animais. Eles simplesmente dividem o espaço com indiferença.

A flutuação termina em uma área com estrutura de troca de roupa, suas roupas secas foram transportadas até lá antecipadamente, mais um detalhe de logística que você só nota quando percebe que não precisa se preocupar com nada. De lá, de volta à sede.

E então: o almoço. Não vou fingir que sou objetivo sobre isso. Se tivesse que dar uma nota de zero a dez para a comida do grupo Rio da Prata, daria mil. É daqueles almoços que parecem planejados para completar uma experiência, como se o cozinheiro soubesse que você acabou de sair da água com o ego levemente redimensionado e precisava de um reconforto à altura. Comida farta, bem-feita, com aquele sabor de interior que nenhum restaurante urbano consegue fingir com sucesso. E o doce de leite? Sem palavras.

O Recanto Ecológico Rio da Prata é um experimento bem-sucedido de convivência entre atividade turística e preservação ambiental, iniciado em 1995, quando a família que gere a Fazenda Cabeceira do Prata decidiu abrir as portas para visitantes com um modelo que priorizava qualidade sobre volume e conservação sobre lucro máximo.

O resultado dessa filosofia está por toda parte: na Reserva Particular do Patrimônio Natural criada para proteger toda a mata ciliar desde a nascente; no Plano de Manejo elaborado com apoio da Conservação Internacional; na certificação ISO 21101 de gestão de segurança mantida anualmente desde 2010.

Em 2026, o Recanto Ecológico Rio da Prata e a Lagoa Misteriosa, atrativo vizinho que opera sob o mesmo grupo, conquistaram o 1º lugar na categoria Melhores Iniciativas para Enfrentamento das Mudanças Climáticas e Conservação da Biodiversidade no 6º Prêmio WTM Latin America, com a iniciativa “Inovação Climate Positive e Conservação da Biodiversidade através de RPPNs”. Gold Winner. Não é o primeiro prêmio, nem deve ser o último.

É o tipo de lugar que faz você entender por que preservar importa. Pela experiência direta de estar dentro daquilo que é possível quando a natureza é tratada como um fim, não como um meio.

Serviço:

O Rio da Prata fica em Jardim, MS, a cerca de uma hora de Bonito. O passeio de flutuação inclui van interna, guia credenciado, equipamentos e almoço. A Lagoa Misteriosa, do mesmo grupo, pode ser visitada no mesmo dia, e esse mergulho fica para um próximo post aqui no blog.

Saiba mais: gruporiodaprata.com.br

Átila Ximenes visitou o atrativo em maio de 2026, quando participou do Inspira Ecoturismo no painel “Turismo Responsável e Políticas Públicas”. Agradecemos ao Grupo Rio da Prata pelo convite para vivenciar essa experiência.

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